Alunos da Fatec criam aplicativo que indica ônibus que está mais vazio

Com sensores colocados nas portas dos coletivos, o aplicativo desenvolvido por alunos recém-formados do curso de Redes de Computadores da Fatec de Osasco reúne informações sobre a quantidade de passageiros que entram nos veículos para as repassar aos usuários do sistema de transporte coletivo. Dessa forma, a pessoa pode saber se o ônibus está vazio, parcialmente ocupado ou lotado.

 

O professor Fábio Brussolo e os alunos Jéssica Costa e William Avancini, da Fatec de Osasco

 

Os desenvolvedores dos aplicativo, William Avancini e Jessica Costa Cruz, acreditam que ele será de grande utilidade para as pessoas porque de posse das informações elas poderão programar as suas viagens. A ideia é propor aos aplicativos já existentes como o Moovit ou Google Maps para acrescentar mais esses dados às  informações que possuem sobre linhas de ônibus.

 

William e Jéssica fizeram um teste para a reportagem do Portal do Governo do Estado para demonstrar a capacidade do sensor de registrar o número de pessoas nos veículos e têm estudos para demonstrar a viabilidade do aplicativo. Eles agora buscam financiadores para colocar o aplicativo em operação de escala.

O desenvolvimento do engenho é parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dos estudantes, que foram orientados pelo professor Fábio Brussolo, e é um exemplo da capacidade de inovação dos alunos formados pelas Faculdades de Tecnologia do Estado.

 

Pesquisas internas da Fatec concluem que 90% dos estudantes formados pela Faculdades de Tecnologia do Estado saem dos cursos já empregados. A Fatec de Osaco, por exemplo, promove duas feiras anuais para expor os trabalhos dos alunos com a participação ativa de empresas que oferecem estágio para os que mais se destacam.

 

Retribuir à sociedade


William e Jéssica vêm de famílias humildes que tiveram a oportunidade de se formar em cursos gratuitos oferecidos pelas Fatecs e também em Escolas Técnicas (Etecs) do Governo do Estado.

 

William tem 43 anos, é casado e tem um filho ainda bebê. Seus pais são agricultores humildes e ele conseguiu concluir os estudos sempre procurando conciliar o ensino com o trabalho, nem sempre compatíveis um com o outro. Por isso, interrompeu várias vezes a formação escolar para priorizar o sustento. Para completar, enfrentou e superou um câncer ósseo.

 

Jéssica tem 21 anos, estudou na Etec e depois ingressou na Fatec. Ela se mostra grata à irmã, dez anos mais velha que ela, que tentou passar nos exames para ingresso nos cursos gratuitos oferecidos pelo governo estadual mas não conseguiu. Ela viu o potencial da irmã e a incentivou a fazer o concorrido vestibular da Etec e da Fatec, Jéssica que se formou esse ano recebeu uma proposta de estágio de uma empresa da região.

 

Os estudantes expressaram o interesse de retornar à sociedade o que receberam da faculdade na forma de um trabalho que pudesse ser útil para as pessoas. Desenvolveram várias ideias com as mesmas ferramentas – wifi, banco de dados e outras -, e escolheram o aplicativo dirigido aos usuários do transporte coletivo.

 

“Quando iniciamos a faculdade nos disseram para já ir pensando no projeto de TCC porque o tempo voa e você tem que aproveitar as disciplinas. Pensamos em seis ou sete projetos e fomos eliminando um a um ao analisar os problemas que poderiam acontecer, como processos judiciais ou questões de registro de patentes. O professor Fábio Brussolo levantou alguns projetos que poderiam ser úteis para a região e os estudantes escolheram trabalhar com o de monitoração do serviço de transportes coletivos.

 

“Ao longo de dois anos, e mais intensamente no último ano e meio, reunimos todos os diferentes sensores que aprendemos a desenvolver no decorrer do curso incluindo ferramentas como o wifi e banco de dados, combinado ao aprendizado de outras disciplinas, como gestão de projetos e empreendedorismo”, conta Willian.

Pesquisa aplicada


“Quem já não enfrentou uma situação de perder o transporte coletivo?” –  questiona o estudante. “Em todos os pontos de ônibus da região de Osasco tem esse tipo de problema: fila dupla, trânsito, todos os dias a gente convive com esse tipo de situação, os alunos tentando entrar a todo custo nos veículos e o ônibus parado, esperando o embarque de gestantes, pessoas com problema de mobilidade, idosos, para partir depois que todos embarquem”, afirma.

 

Jéssica e William acreditam que o papel dos estudantes é aproveitar tudo o que a Fatec proporciona, “uma faculdade pública incrível”, afirmam, com os alunos lutando para serem aprovados no vestibular e sair da faculdade para aplicar tudo o que aprenderam em benefício da coletividade. “A gente quer retribuir para a sociedade e ao poder público a oportunidade que nos deram para estudar”, afirma Jéssica.

 

Então, os estudantes criaram a “Solução para Obtenção de Transmissão de Dados para o Transporte Coletivo Urbano”, nome técnico do projeto que eles abreviaram para a sigla SICTC. O que motivou o projeto, segundo Willian e Jéssica, foi a “Internet das Coisas”, inovação que acreditam vai movimentar o futuro daqui para frente.

 

“Tudo vai ser colocado dentro da internet, uma câmera, a geladeira, a TV. Mas algumas coisas só são possíveis de serem adquiridas pelas pessoas com alto poder aquisitivo e a gente resolveu  simplificar, baratear. Então, nós desenvolvemos um dispositivo de coleta de dados”, diz Willian, mostrando o aparelho, um pequeno objeto, preparado para captar com sensores a informação de quantas pessoas estão entrando no ônibus, calcular temperatura, pressão, se o veículo está passando ou não.

 

Como funciona o aplicativo


Os sensores foram planejados para serem instalados nas portas dos ônibus e transmitir os dados para uma plataforma. No caso da Fatec de Osasco, explicam os estudantes, que tem 24 salas de aula, todos os alunos saem no mesmo horário para pegar a mesma linha de ônibus, que passa na frente do prédio, com todos disputando um lugar ao meio do movimento de carros que trafegam na mesma faixa  de rolagem dos ônibus. Os automóveis permanecem em fita até o ônibus partir com todos os passageiros, o que provoca reflexos negativos no trânsito da região.

 

Alguns aplicativos indicam o horário dos ônibus mas não conseguem identificar a que momento o ônibus vai passar de fato e qual a quantidade de pessoas de cada veículo. O passageiro pensa que é preciso garantir o seu lugar no ônibus porque não sabe quando o outro coletivo vai passar. O aplicativo permite ao passageiro identificar a linha do ônibus e o momento em que ele vai passar e saber se está vazio, parcialmente cheio ou lotado.

 

Esses dados podem ser repassados para aplicativos já existentes como o Moovit ou o Google Maps, entre outros. Tudo foi planejado pelos estudantes: a receita financeira do projeto virá da compra dessa informação pelas empresas que já detém os aplicativos. Os estudantes não excluem a possibilidade de criarem um aplicativo próprio no futuro, dependendo dos recursos financeiros que conseguirem captar, mas dizem que a intenção de momento é comercializar com as empresas as informações coletadas.

 

O aplicativo pode ser instalado de forma praticamente imperceptível nos ônibus, pode ser trocado com facilidade em caso de falha e garante o sigilo dos dados das empresas dos coletivos. Funciona com energia solar e durante a noite utiliza a carga decorrente da bateria solar, explicam os alunos, ao fazerem a demonstração do aparelho.

 

Eles passam a mão pelo sensor para simular o movimento de passageiros. Um indicador muda de cor de acordo com a lotação. A cor verde mostra que o veículo está vazio, o amarelo que ele está parcialmente cheio e o vermelho se está lotado.

 

A informação aparece em forma de porcentagens, em que vazio é o ônibus com até 40% de pessoas, o amarelo parte daí até 90% e o lotado em 100%. Essa informação será repassada para as empresas que detém aplicativos com indicação de linhas de ônibus para sinalizar ao passageiro em que condições o veículo de determinada linha vai estar.

 

O passageiro, por sua vez, escolhe se é melhorar tomar o ônibus naquele momento ou se é melhor esperar o veículo seguinte. Para as companhias de ônibus os dados sigilosos estão seguros porque o aplicativo trabalha com porcentagens e não com quantidades numéricas, não há exposição de comportamento, nem identificação dos passageiros.

 

Os estudantes buscam agora investidores para o desenvolvimento do aplicativo, cujo protótipo sai por menos de R$ 300, mas que pode ser barateado significativamente em larga escala. Custos com equipe, investimento inicial, estrutura e operação e outras despesas estão calculados, assim como a aplicação da tecnologia nas 800 linhas de ônibus de Osasco e região que estariam cobertas em cinco anos de operação.

 

Foto: Alexandre Carvalho/A2img

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